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O dogma de Santos e os pecadores

Carlos Rui Abreu
\ sexta-feira, julho 09, 2021
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Como jornalista, faz-me muita confusão ver colegas que vão para estes eventos literalmente com o cachecol ao pescoço. É contra todas as regras básicas da profissão.

A participação de Portugal no EURO 2020 deveria merecer uma reflexão profunda sob vários ângulos de análise. Neste espaço, que é curto para não ser maçador, vou apenas deixar ficar duas dicas que mereciam outros fóruns, com debate sério.

Contudo, deixo à análise dos leitores duas opiniões.

A primeira prende-se com o acompanhamento jornalístico que se faz de uma participação nacional como esta. Como jornalista, faz-me muita confusão ver colegas que vão para estes eventos literalmente com o cachecol ao pescoço. É contra todas as regras básicas da profissão tomarmos parte do acontecimento que estamos a descrever. Expressões como “logo vamos ganhar se Deus quiser”, “Portugal tem de ganhar nem que seja com um golo com mão”, nós isto, nós aquilo, e por aí adiante. Ouvi tudo isto da boca de jornalistas que não conseguem deixar de ser adeptos. A cobertura jornalística neste tom de ‘nacional-parolismo’ dava uma boa tese de mestrado a quem se quiser ocupar de a estudar.

É algo interessante porque, para quem como eu faz narrações de futebol, a fronteira entre a emoção e a razão é ténue. Mas, há sempre um ‘mas’, defendo que no momento de narrar um golo essa emoção se possa sobrepor à razão. Algo diferente é o antes e o pós jogo. O Estatuto de Jornalista até cora de vergonha.  

No fio condutor do que acabo de escrever surge outro ponto de análise. O que trata da discussão, pura e dura, do desempenho de uma equipa de futebol. Fruto da vitória de Paris em 2016 e, mais tarde, da Liga das Nações, criou-se em torno de Fernando Santos uma espécie de aura de intocável. Uma cápsula que quem ousa violar é logo acusado de antipatriótico. Mas será que o ‘Dogma Santos’ vai durar muito mais tempo? Será que pelo facto de um treinador ter ganho muitas vezes deixa de poder ser criticado?

Claro que não. A seleção nacional teve uma vitória feliz em 2016, jogou muito e bem em todo o trajeto na Liga das Nações, foi sofrível no Mundial de 2018 e agora teve um desempenhado mau no EURO 2020. Com o lote de jogadores que Fernando Santos tem à disposição é normal exigir mais e melhor. É certo que Portugal não tem de ser campeão sempre mas tem a obrigação de tentar praticar um futebol atrativo. Por muito que goze de ‘boa imprensa’, agradeçamos-lhe os títulos que conquistou mas deem uma nova vida à seleção. Tanto talento com a bola nos pés não pode ser desperdiçado.

Será que ainda há quem pense que Otto Rehhagel é o selecionador da Grécia desde 2004?