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Os Valores… (continuação)

Francisco Oliveira
\ sexta-feira, abril 01, 2022
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Uma nova equipa diretiva venceu as eleições – de forma tão cabal – esperamos que um dos valores maiores do jogo/desporto prevaleça: sejamos uma equipa unida em prol de um Vitória Maior".

E depois das eleições do nosso Vitória Sport Clube, onde uma nova equipa diretiva venceu as eleições – de forma tão cabal – esperamos que um dos valores maiores do jogo/desporto prevaleça: sejamos uma equipa unida em prol de um Vitória Maior.

E este é um dos valores que nesta crónica me proponho abordar: o trabalho em equipa. Este consiste no estabelecimento de relações coesas entre diretores, treinadores, atletas e adeptos, e de sobremaneira em tempos de feroz individualismo consumista. Este realiza-se na felicidade fugaz do indivíduo, desaguando (não raramente) num desolador individualismo. Mesmo nos desportos mais individuais (vg., ténis ou natação) há sempre formas de trabalho em equipa. Cercados por uma mentalidade individualista, não entendida como indivíduo/pessoa, mais egotista (mais que egoísta), onde os interesses individuais prevalecem sobre o bem comum e a comunidade. Favorece uma mentalidade lucrativa e do vencer a qualquer custo. O desporto pode e deve promover uma mentalidade holista, como uma escola de espírito de equipa que ajuda cada um a superar a sua arreigada atitude egotista. O Papa Francisco, falando aos jovens atletas, aquando do septuagésimo aniversário do Centro Desportivo Italiano, dizia: “Desejo-vos também que sintais o gosto, a beleza do jogo de equipa, que é muito importante para a vida. Não individualismo! Não a jogar para si próprios. Na minha terra, quando um jogador faz isso, dizemos-lhe. “Este quer comer a bola sozinho!” Não, isso é individualismo: não comais a bola, fazei jogo de equipa”. Uma grande equipa é formada por grandes personalidades individuais, que não jogam sozinhas, mas juntas. E juntos somos mais fortes e crescemos num espírito de entreajuda que não deixa ninguém para trás.

Outro dos valores, que fomentam mulheres e homens construtores de comunidade, é o sacrífico. Não um sacrifício masoquista de objetivos autorreferenciais, mas de abertura aos outros, melhorando as performances físicas e morais de cada qual, para mais e melhor humanizar o habitat de todos. Para alcançar metas e resultados na vida de cada um ou do grupo/equipa, estes implicam um certo nível de dureza, abnegação, dedicação e humildade, favorecendo aprendizagem e aquisição das competências e das capacidades necessárias para a atividade desportiva. E porquê? Porque aprender e melhorar no desporto (como na vida) implica sempre chocar com a derrota, a frustração e o desafio. Como diz o velho ditado – a sorte dá muito trabalho. Este é um espírito que, mais do que nunca, em tempos de felicidades fáceis e fugazes, precisamos de inculcar no jogo/desporto, derrotando esse outro que se levanta de ganhar a qualquer custo (com corrupção, doping, etc). Contudo, e ai daqueles que se esquecem deste pormenor (tornando as consequências um pormaior), estes sacrifícios só têm sentido se forem feitos por paixão pelo desporto. Sem os sacrifícios que nos são exigidos, que nunca devem depauperar o ser homem/mulher, nunca se obtêm resultados importantes, nem tampouco satisfações autênticas. Estes devem formar o próprio caráter de modo peculiar, desenvolvendo as virtudes da coragem e da humildade, da perseverança e da fortaleza. A persistência (ou resiliência, como hoje mais comumente apelidamos) e autodisciplina são instrumentos necessários para superar os desafios e assumir as consequências dos mesmos, na vitória e na derrota. Aqui o sofrimento, não o masoquismo, revelam todo o seu poder transformador da humanidade e da sociedade. Porque estes são racionais e afetam as melhores capacidades físicas, morais e espirituais do ser humano situado no tempo e no espaço onde vive e desenvolve o seu jogo/desporto.

Por último, dois valores de sobremaneira maiores na missão do jogo/desporto na nossa humanidade e nas nossas comunidades: a alegria e a harmonia. O jogo dá, tem de dar, alegria a todos aqueles que o praticam livremente. Nem podemos olvidar que a alegria que se experimenta na prática desportiva, muitas vezes convive com as dificuldades e os desafios mais duros, e emergindo deles. Mexer-se é fundamental para o ser humano, para a sua saúde física, mental e social, mesmo que seja só pelo simples prazer de o praticar (de fazer aquilo que agrada ou apaixona). Mas alegria é um dom fundado sobre o amor, o que me leva a alertar que o desporto dito profissional não é, nem deve ser, o mais importante (mesmo sabendo que este é um negócio, o que exige de nós muito realismo), pois para muitos de nós a sua prática não se reveste de nenhuma utilidade como o sucesso ou o dinheiro; o que o torna ainda mais interessante. Pois isto ensina-nos que a alegria autêntica (o caminhar, o correr, o jogar, a bicicleta, etc, sozinhos ou em conjunto), profunda e duradoira emerge com frequência quando nos empenhamos com todo o nosso ser em qualquer coisa que nos apaixona (no meu caso é o caminhar, sozinho ou acompanhado). E aqui, o sofrimento e sacrifício de que falei antes, nunca dissiparão a alegria da qual nos tornamos portadores para os que connosco se encontram nas encruzilhadas da vida. A harmonia, neste espírito genuíno da prática desportiva, é uma consequência desta atitude fundamental – quer como pessoa, quer como sociedade. Referindo-se ao equilíbrio e ao bem-estar, a harmonia promove a verdadeira felicidade pessoal e social. Cria relações fraternas entre mulheres e homens de todas as condições, de todas as nações e etnias diferentes. Cria laços mais fortes do que as derrotas e as vitórias que se sucedem no desenrolar dos momentos desportivos. Esta harmonia para ser bem conseguida exige a harmonia de cada atleta no seu todo – físico, moral e espiritual, mental e social. De todos os talentos de cada mulher e homem, e da sociedade em que habitam como morada de encontro e convívio. Só assim o desporto/jogo está ao serviço da humanidade e da comunidade, e não de outros argonautas que hoje povoam o mundo desportivo focados exclusivamente no lucro e no sucesso.

Na próxima crónica continuarei a propor os valores do jogo/desporto. Porém, e porque estamos nas vésperas de um derby vimaranense (no qual esperemos que o meu Vitória ganhe), recordo-me de uma passagem da biografia política de Barack Obama onde relata a sua conversa com a juíza (Sonia Sotomayor) por ele escolhida na Sala Oval da Casa Branca – “No fim da entrevista, eu estava convencido de que Sonia Sotomayor possuía aquilo que eu procurava, embora não lho tenha dito de imediato. Disse-lhe, contudo, que o seu currículo tinha um aspeto que me preocupava.

- O que é, senhor Presidente? – quis saber.

- É adepta dos Yankees – disse eu. – Mas como foi criada no Bronx e lhe fizeram uma lavagem ao cérebro em tenra idade, estou disposto a ignorar este facto”.

Que bom seria, nós que somos todos de Guimarães, pudéssemos brincar uns com os outros, como Obama o faz em assunto tão sério, percebendo nós que o futebol é das coisas menos importantes, mesmo que das menos importantes seja a mais importante, não nos impedindo de ver a beleza e a alegria de cada qual e de cada grupo que se coloca diante de nós, construindo mais humanidade e mais comunidade. Se o jogo/desporto não é para brincar, para que serve?!