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Os Valores que o Jogo/Desporto pode promover

Francisco Oliveira
\ sexta-feira, fevereiro 04, 2022
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O jogo/desporto, que serve para brincar, numa perspetiva recreativa e criativa, é hoje também um negócio, e por essa mesma razão, mais do que nunca, devemos realçar os valores que são promovidos.

O desporto é um lugar de encontro, mesmo numa cultura dominada pelo individualismo, não raramente egotista, e pelo descarte das gerações dos mais jovens e dos mais velhos; e, simultaneamente, um tempo e espaço privilegiado em torno do qual as pessoas se encontram sem nenhuma espécie de distinção. Na alegria de competir, alcançando juntos uma meta, em equipa ou individualmente, partilhando e superando as vitórias e as derrotas. O jogo torna-se, assim, um catalisador de experiências comunitárias, de família humana. E mesmo que a prática desportiva se realize individualmente, é sempre em equipa (treinador, clube, família, adeptos,...) um lugar de união, de encontro e de formação. Esta formação é integral para a pessoa e para a sociedade, não como tribo, mas como comunidade. Uma alegria transmitida na descoberta das potencialidades da pessoa e no desvelamento da beleza da criação e da própria humanidade (do melhor do ser humano). E é aqui que os atletas se tornam modelos para as gerações mais novas e para o todo social, dando o melhor de si. Assim, o jogo/desporto manifesta-se como uma fonte riquíssima de valores e virtudes, na descoberta do melhor de cada qual, no conhecimento dos nossos limites e no empenho para melhorar, mesmo que implique uma entrega ascética ao ideal desportivo, mas sempre com os outros e nunca contra os outros.

Antes de tudo, na prática desportiva (no jogo/desporto em geral) é princípio basilar o respeito pela dignidade da pessoa, e definir como prioridade o colocar o desporto sempre ao serviço do crescimento e do desenvolvimento integral da pessoa, e não à pessoa (como um meio) ao serviço do desporto (como um fim). E, por outro lado, sempre na perspetiva de uma superação saudável de si mesmo e dos próprios egoísmos, treinando um espírito de sacrifício e de relações leais, em amizade e no respeito pelas regras. E como já o afirmei antes, sobretudo nestes tempos em que o negócio parece ganhar, cada vez mais, a dianteira da prática desportiva – só “ganhar e lucrar” é o “valor maior” e o foco único da prática desportiva. Uma mera atividade económica, sem jogo e sem brincadeira. A pessoa do atleta, e de todos aqueles que estão na esfera do jogo/desporto (dirigentes, adeptos, e todos os demais), é um fim em si mesmo, tendo o jogo/desporto como ponto de partida e como fim o interesse pelo ser humano. Aqui se mede, sem ambiguidades e desvios, a marca de qualidade ética de qualquer prática desportivo, de qualquer jogo, que se desenvolvem como um valor acrescentado para o indivíduo e a comunidade. O desporto é alegria de viver e de encontrar-se com o que é belo, bom e verdadeiro. Sempre com gratuidade, estabelecendo vínculos de amizade e favorecendo aberturas dialogantes e pontes comunicantes entre os povos e as culturas, destacando-se hoje como um fenómeno universal. Sem dúvida que o jogo/desporto é uma constante antropológica da humanidade, e no tempo presente deve – mais do que nunca! – estar ao serviço da paz e da fraternidade, cultivando relações saudáveis entre as pessoas e a criação, entre os povos e as culturas. Porém, e não sejamos ingénuos, o desporto é um sinal dos tempos altamente expressivo, mas, ao mesmo tempo, dificilmente controlável (pelo espírito capitalista de que dele se apoderou, a violência e a corrupção, a dopagem e de todas as formas de falta de fair play...), o que não ajuda à sua compreensão.

O desporto (como desde o início destas crónicas venho reforçando) é um jogo, quer dizer, o desporto não é uma atividade funcional ou útil para atingir um objetivo exterior a si próprio (como os negócios ou o vencer a qualquer preço), mas a sua finalidade encontra-se na própria pessoa. E digo mais, se as finalidades externas (por exemplo, ganhar dinheiro, dignificar uma nação ou demonstrar a superioridade de um regime político, etc...) predominarem sobre as finalidades internas do desporto (por exemplo, a perfeição do gesto técnico, jogar bem em equipa, melhoria de prestação pessoal ou a superação de resultado de um adversário, etc...), já não se poderia falar de jogo, mas de trabalho. E, infelizmente, é o que tem acontecido no desporto profissional e de massas. Consequência maior – os atletas tornaram-se objetos com preço e moedas de troca dos interesses de fazer dinheiro (money make to money), e o desporto tornou-se mais um produto. Mas como é possível esquecer que os profissionais nunca poderiam alcançar níveis de excelência se, a par da dimensão do profissionalismo, não houvesse a dimensão lúdica? Urge uma pluralidade interpretativa do jogo/desporto, e aqui deve ou pode ser considerada a narração de uma história entre duas ou mais partes concorrentes entre si (competindo, ludicamente, com regras) para obter um prémio sem serem movidos, exclusivamente, por uma motivação vital ou estritamente concreta ou utilitarista, esforçando-se por darem o melhor de si como pessoas. Suplantando as motivações individuais, por mais nobres que sejam, e em equipa (colegas do jogo, adeptos e espetadores, dirigentes e os demais participantes no fenómeno desportivo) todos serem capazes de se tornarem protagonistas dessa narração. É esta multiplicidade interpretativa que o torna tão fascinante e apaixonante, e, perigosamente, o expõe a instrumentalizações diversas, funcionais ou ideológicas.

Continuamos na próxima crónica...