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Quero um governo em 4x3x3…losango

Carlos Rui Abreu
\ segunda-feira, janeiro 24, 2022
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Está instituída em Portugal a ideia, comprovada amiúde, de que os políticos de aproveitam do futebol para se tornarem ainda mais populares.

Atrelam-se aos sucessos dos principais clubes do burgo, vão a rasto das boas campanhas das diversas seleções nacionais e dão tudo para serem vistos nas primeiras filas dos principais camarotes. Mais pormenor, menos pormenor, é aquilo a que comumente se chama a politização do futebol. Para lidarmos com este conceito já todos estávamos mais ou menos preparados.

Contudo, nas últimas semanas, observo uma inversão. Passamos da politização do futebol para a futebolização da política. Vem isto a propósito dos debates televisivos que os líderes partidários protagonizaram e que motivaram as mais diversas análises e, pasme-se, análises das análises. Tal como no final de um jogo de futebol embora com uma grande diferença. No final do jogo basta olhar para o resultado e percebe-se quem ganhou. No debate é diferente. É aos comentadores que se pergunta quem ganhou.

E, tal como no desporto-rei, perde-se mais tempo a analisar o jogo (por vezes demora dias e dias) do que demora a contenda propriamente dita dentro das quatro linhas. A linguagem dos comentadores não se altera muito. ‘Costa ganhou mas Rio jogou mais ao ataque. Não deu para a vitória mas o Tavares do Livre foi dos melhores (as tais vitórias morais). A Catarina e o Jerónimo estiveram um pouco apagados (vêm de épocas desgastantes). O Ventura dá muita porrada, é voluntarioso mas nunca há de jogar num grande. O Cotrim até tem técnica mas abusa muito do jogo pelo flanco direito, onde também joga o Chicão que anda mais numa de bola prá frente e fé em Deus. E a Inês é para outras touradas (no fundo, de outro campeonato).

Em cada canal televisivo há um vasto painel de comentadores. À semelhança do mundo da bola lá surgem os que são adeptos do partido A ou do B e aqueles que, aparentemente isentos, vão dando uma forcinha ao ‘clube do coração’. Ganhou este ou aquele, esteve melhor sicrano do que beltrano e, no final, tudo na mesma. Vão ao pormenor de interpretar a postura corporal dos políticos, as expressões mais ou menos fechadas, que poderão significar uma qualquer fraqueza ou força. Desligamos a televisão, já depois da flash interview dos políticos, e passamos os olhos pelas redes sociais. Como se de um final de jogo se tratasse lá estão os politólogos de ocasião, que percebem tanto de um fora de jogo como de ciência política, que deixaram para trás as análises às transições ofensivas e à falta de basculação de uma equipa para se debruçarem sobre os méritos dos homens que se propõem a governar-nos. E, aí, a análise ainda é mais completa e refinada. Além dos debates ainda se pronunciam sobre a performance dos comentadores e atiram-se a descobrir qual a ‘agenda escondida’ que os fez inclinar para determinado político.

Com tanta transmissão de pré-debate e pós-debate, confesso que me fez falta o sempre tão informativo acompanhamento em direto do autocarro da equipa a sair do hotel, neste caso seria de cada um dos candidatos, e as tão acérrimas juventudes partidárias aos gritos, empunhando bandeiras, à passagem dos líderes.

Quando ao final da noite do próximo dia 30 se conhecerem os resultados destas legislativas, só espero que ninguém tenha a ideia de pedir a intervenção do VAR e tudo isto tenha de ser repetido.

A finalizar, e já que estou numa de futebolização da política, espero que o próximo governo adote a minha tática favorita. O 4x3x3 losango para ver se este país começa, de facto, a jogar para a frente e para ganhar.