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Três documentos/momentos essenciais para o Jogo/Desporto

Francisco Oliveira
\ sexta-feira, maio 27, 2022
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A contribuição destes três documentos/momentos para o conceito de Jogo, e de sobremaneira da subcategoria Desporto, foi decisivo para o papel que o desporto hoje assumiu em todo o mundo.

Foi em 1964 que o Manifesto sobre o Desporto surgiu e começou a revolucionar o Jogo e o Desporto no mundo ocidental. Passados 14 anos, em 1978, a Carta Internacional da Educação Física e do Desporto da UNESCO, revista diversas vezes, e hoje intitulada de Carta Internacional da Educação Física, da Atividade Física e do Desporto (2015), que começa o alargamento deste emergente entendimento do Desporto a todo o mundo. Finalmente, o Ano Europeu da Educação pelo Desporto – 2004, relevando não só a prática desportiva, mas o seu valor e pertinência educativa das populações de todas as latitudes e longitudes. A contribuição destes três documentos/momentos para o conceito de Jogo, e de sobremaneira da subcategoria Desporto, foi decisivo para o papel que o desporto hoje assumiu em todo o mundo (e não só no ocidente).

O Comité Executivo do Conselho Internacional de Educação Física, reunido a 25 de Outubro de 1964 na Cidade de Tóquio emitiu este belíssimo documento (Manifesto sobre o Desporto) que, no meu entender, deve ser tido como essencial para a mudança de paradigma no trato e na visão do jogo, e de sobremaneira do desporto. O Presidente deste Comité Executivo, Philip Noel-Baker, assinalando o terminus dos Jogos Olímpicos de Tóquio, encabeça este documento com uma mensagem onde realça que “o desporto pode ser um poderoso instrumento de boa compreensão internacional: os jogos mostraram aos atletas, aos espetadores, à imprensa, aos homens em geral, que o mundo pode oferecer um espetáculo mais nobre que o obscuro militarismo nuclear ou o das dissidências políticas que tantos governos parecem aceitar”. Palavras, que passados tantos anos, infelizmente, ainda são tão atuais. Revelam, de forma convincente e esperançosa, que o Jogo/Desporto é uma arma de paz e de convergência, promotor de uma humanidade que compete no e pelo melhor de si em beleza e fraternidade. Contudo, e este não é um texto irrealista, sabe que “por detrás do brilho e prestígio desta competição (os Jogos Olímpicos), há problemas graves e urgentes que se põem e que devem ser resolvidos”. Assim, na espetacularidade excecional do Jogo, denuncia a presença corruptora do dinheiro, mas ao mesmo tempo a exigente justiça de que estes artistas do desporto (os atletas) sejam devidamente apoiados e renumerados. Mantendo-se, não raramente (mesmo hoje), um falso amadorismo que disfarça (e mal) esta flagrante injustiça para com os praticantes. Este muito dinheiro envolvido dá muito lucro a alguns, mas são sempre protelados aqueles e aquelas que tornam belo e espetacular o jogo/desporto. E, igualmente, a denúncia, corajosa, do chauvinismo, este patriotismo exagerado, manifestado por um fanatismo ou entusiasmo excessivo pelo que é nacional, menosprezando sistematicamente o estrangeiro; e revelando o papel da imprensa – “quando a imprensa não tem consciência da alta responsabilidade que lhe incumbe” (o que falta na imprensa desportiva portuguesa, marcada por 3 amores que minam a convivência saudável do desporto em Portugal) – e todas as falcatruas que viciam o espírito do jogo/desporto. Escreve: “O dinheiro e o chauvinismo põem assim em perigo os ideais que inspiraram desde sempre a ação do poder olímpico e das Federações desportivas internacionais, e principalmente o ideal de fair play”.

Para Philip Noel-Baker o fair play é “a própria essência de todos os jogos, de todos os desportos”, seja profissional, seja amador. Traduz-se sempre no respeito pelo adversário e por si mesmo. Tudo o resto é degradante e humilhante, mas infelizmente existem na prática do jogo/desporto desvirtuações que colocam em perigo o desporto e a sua prática, bem como – e é o mais grave – os seus praticantes. O jogo/desporto está ao serviço da humanidade e da sua humanização, e não o contrário. Apela o presidente do Comité Executivo para o desenvolvimento do “valor individual e (da) distração coletiva” do jogo/desporto, “como fator de boa compreensão internacional”. Este é um documento que procura consensos entre os povos e as culturas diversas, analisando os problemas que existem (e infelizmente persistem) e busca soluções que agreguem todos no melhor caminho de humanização do jogo/desporto, privilegiando sempre os praticantes. Este Manifesto compõem-se de um Preâmbulo, 3 capítulos e uma Conclusão.

O Preâmbulo apresenta 9 pontos de definição que realçam o que é o desporto, para quem e com quem, direitos e obrigações, problemas e soluções: Do Desporto, Do Grupo Desportivo, Da Promoção do Homem Pelo Desporto, Do Direito de todos em Praticarem o Desporto, Das Obrigações do desporto, Dos Deveres do Desporto, O Desporto ao Serviço do Homem, Dos Problemas Novos num Mundo em Transformação e A Contribuição do Desporto Para a Solução dos Novos Problemas. “Toda a atividade física com caráter de jogo que toma a forma de uma luta consigo mesmo ou de uma competição com os outros, é um desporto”, mas reforçando a lealdade e o cavalheirismo – “não pode haver desporto sem fair play”:

  1. O desporto favorece o encontro de mulheres e homens em alegria e sinceridade, permitindo um mais e melhor conhecimento e estima mútua, solidariedade e fraternidade generosa e ativa.
  2. “O grupo desportivo é uma família” construída em simpatia e amizade, gerando calor humano que lhe dá coesão.
  3. O desporto tem de assumir um papel humanizador e que o deve sempre promover, procurando o equilíbrio saudável do corpo, da alma e do espírito. Uma humanidade inteira, ativa e responsável, capaz de assumir a sua vida nos riscos e nas vitórias. Como “fator de desenvolvimento individual” onde se exprime e se define em liberdade e comunidade.
  4. Um desporto de todos e para todos, no lazer e na educação, com os tempos, lugares e meios necessários para a “mais completa realização desportiva” e humana.
  5. Um jogo/desporto que cumpre as obrigações mais básicas do espírito desportivo: “observar lealmente a regra na letra e no espírito”; “respeitar os seus adversários e os árbitros antes, durante e depois”; “permanecer correto em relação ao público”; “permanecer sempre seguro de si, conservar serenidade e medida”; “forças para a vitória, mas saber evitar o desânimo (…) e a vaidade”. A melhor recompensa, na vitória e na derrota, é saber que demos o melhor de nós.
  6. Os dirigentes desportivos devem saber preservar “o ideal do amadorismo”, e assumir a sua missão educativa, quer física, quer moral, cultivar a solidariedade e o caráter cultural e social do “descanso desportivo” (hoje são meros gestores), “e favorecer assim a vocação do desporto em servir o humanismo e a paz”.
  7. Este jogo/desporto ao serviço das mulheres e dos homens que o praticam profissionalmente ou como momento de lazer, devem guardar sempre o caráter amador e equilibrado do desporto para a felicidade do ser humano individual e comunitário.
  8. Sobretudo neste mundo (como então) em transformação e com emergentes novos questionamentos. É só mais uma razão para valorizar os tempos livres como “tendo mais possibilidades de se expandir” na solidariedade ativa com ele, com os outros e com a natureza.
  9. Finalmente, o desporto é apresentado como “o elemento compensador indispensável às inibições da vida de hoje”, promovendo a saúde e o desenvolvimento de certas qualidades de caráter no compromisso do corpo, da inteligência e da vontade. Promove, quer na escola, quer nos tempos livres, quer na alta competição, uma mais conseguida expansão da pessoa e a sua melhor integração social.

Continua…