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Uma sociedade mais ativa começa a ser ativa na escola

Paula R. Nogueira
\ segunda-feira, agosto 09, 2021
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E a escola é, por excelência, o ponto de partida. Se queremos uma sociedade mais ativa, com melhor saúde e qualidade de vida, temos de começar no infantário, há até quem defenda começar na creche.

O conceito de escola ativa faz parte do plano customizado «Active City» ou «matrix» que resultou do trabalho desenvolvido no âmbito do PACTE, programa cofinanciado pela União Europeia (Erasmus +Sport) e que teve como objetivo promover as cidades ativas na Europa. Já aqui me referi à participação de Guimarães neste programa, onde se partilharam boas práticas.

Há sempre uma incontida tentação para considerar o trabalho dos outros países e cidades melhor do que o nosso. Não é verdade. Há toda uma Europa à procura de respostas para combater a inatividade física e de soluções para promover o desporto. A ação é, obrigatoriamente, comum.

E a escola é, por excelência, o ponto de partida. Se queremos uma sociedade mais ativa, com melhor saúde e qualidade de vida, temos de começar no infantário, há até quem defenda começar na creche, e manter a regularidade promovendo uma atividade física sustentável e ao longo do ciclo de vida.

Há anos que a Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta para a necessidade de travar e reverter a catástrofe humana do sedentarismo. Os últimos avisos são dramáticos: 85% das raparigas e 78% dos rapazes em idade escolar não cumprem com as recomendações mínimas de prática diária de atividade física (moderada a vigorosa), estimada em 60 minutos.

Centenas de estudos realizados por investigadores de todo o mundo convergem para uma conclusão: à medida que avança a idade das crianças e adolescentes diminuem os níveis de atividade física e prática desportiva. Esta diminuição acontece na escola, mas reflete-se também no tempo livre, lazer e na prática de desporto. O impacto na saúde é impressionante: distúrbios do sono, excesso de peso, obesidade, doenças cardiovasculares, do sistema endócrino e musculoesquelético, empobrecimento das relações pessoais.

As raparigas têm níveis de atividade física e prática desportiva inferiores aos dos rapazes em todas as idades e ciclos escolares. Os rapazes evidenciam maior predisposição para o exercício físico e mais motivação para praticar desporto.

Tudo começa no recreio, onde os ambientes são cada vez mais controlados, pouco amigáveis ao divertimento e ao exercício. O corpo humano está configurado para o movimento, mas vivemos numa sociedade que tudo faz para discipliná-lo em sentido contrário. Com esse espartilho surgem a obesidade infantil, as depressões juvenis, o isolamento social, a exposição excessiva a ecrãs e tecnologia – para não falar de todas as doenças que emergem desses quadros comportamentais – e os custos sociais de longo prazo.

São necessárias (novas) estratégias para promover a atividade física (AF), a educação física (EF) e o desporto escolar (DE). A mudança tem de envolver a instituição escolar, as famílias, os municípios, e o Ministério da Educação que devia considerar uma revisão dos programas adequando-os ao conceito da «Escola Ativa».

O professor de Educação Física tem, em tudo isto, um papel importante, talvez o papel principal. A evidência não desmente, e a regularidade da EF em contexto escolar contribui para o bem-estar, o sucesso escolar, a motivação e a saúde das crianças e adolescentes. Mais, as crianças e adolescentes que praticam AF, EF e DE desde os primeiros anos de vida tendem, quando adultos, a transferir essas práticas regulares para a sua vida pessoal e tempo livre.

Queremos sucesso escolar e alunos concentrados na sala de aula, mas obrigamo-los a conterem-se na expressão física nos 15 ou 20 minutos de intervalo. Tiraram as bolas e as cordas, removeram as árvores, ergueram gradeamentos e fecharam os portões. O desconcerto horário das aulas de EF, o tempo reduzido, a (ainda) falta de condições e instalações, a desvalorização da disciplina de EF, são problemas para resolver.

Uma sociedade aprende a ser mais ativa na escola.